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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Folha de S. Paulo - O papel dos países não alinhados hoje


O Irã vem tentando mostrar ao mundo que sua cultura é aceitável, mesmo não alinhada ao modelo ocidental. Minha opinião: o Ocidente tem muito a perder no Oriente Médio (países recheados de petróleo) se um modelo "independente" der certo. Logo é melhor parar de importar petróleo do Irã até eles entrarem na linha. 

=> A Arábia Saudita é quase um Irã em termos de fundamentalismo, mas ninguém por aqui fala nada porque ela é "amiguinha" do Ocidente.

Esse artigo tem muita retórica mas mostra essa vontade do Irã em se mostrar legítimo.

Folha de S. Paulo - O papel dos países não alinhados hoje / Artigo / Mohammad Ali Ghanezadeh

Mohammad Ali Ghanezadeh, 59, é o embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil
O Irã, democracia religiosa, tem papel central na luta contra as ameaças criadas pelos países poderosos, como o acúmulo de armas nucleares e químicas
A cúpula do Movimento dos Países Não Alinhados (NAM, de Non-Aligned Movement) será realizada entre 30 e 31 de agosto em Teerã.
Ela tem como lema uma governança global compartilhada, que, com base na rejeição de unilateralismo, é uma das preocupações comuns dos Estados independentes e soberanos.
Neste evento, será debatido, entre outros assuntos importantes para os países-membros, as mais relevantes questões internacionais e regionais, incluindo o fortalecimento do multilateralismo, a reforma na estrutura das ONU, o desarmamento internacional, o combate ao terrorismo e o enfoque em uma solução pacífica para litígios e conflitos.
O NAM é um movimento que reúne 120 membros. Foi criado em 1961 por países que não queriam se associar a nenhum dos dois polos na estrutura internacional da época.
Há ainda os membros-observadores, 21 países, incluindo o Brasil, e dez organizações regionais e internacionais, incluindo a ONU, a Organização de Cooperação Islâmica, a União Africana e a Liga Árabe. Dois terços dos países na ONU são do NAM. Trata-se da segunda maior organização política mundial, depois da própria ONU.
Mas há uma questão: que papel o NAM pode desempenhar?
Como resposta, devo dizer que as necessidades atuais exigem que todas as nações participem da gestão global. Embora o sistema bipolar tenha sido desmantelado, a humanidade segue com vários problemas:
- O unilateralismo;
- As ameaças criadas pelo acúmulo de armamento nuclear, biológico e químico dos países poderosos;
- A continuação da fissura entre os países desenvolvidos e aqueles em desenvolvimento;
- A falta de reforma das velhas estruturas internacionais;
- E, entre outros problemas, a degradação ambiental.
As soluções passam pela determinação e pela cooperação coletiva. O NAM, com base na grande capacidade de seus países-membros, pode desempenhar um papel eficaz para enfrentar e controlar esses acontecimentos e assuntos supracitados.
Desde o início da vitória da Revolução Islâmica no Irã, em 1979, nosso país baseia os seus princípios e aspirações de política externa, incluindo uma mudança nas relações injustas que regem o mundo:
- À não dependência aos poderes dominadores;
- Ao respeito ao direito à autodeterminação das nações;
- À eliminação, a ocupação e a rejeição da dominação estrangeira.
Por isso, houve uma intrínseca sinergia com os ideais do Movimento Não Alinhado. Assim, o Irã teve uma presença ativa e eficaz nas atividades desse movimento.
O líder supremo e o presidente da República Islâmica do Irã destacaram várias vezes a importância da criação de sistemas justos na ordem internacional, mantendo a independência das nações e assegurando outros princípios do NAM.
A República Islâmica do Irã, como um dos membros pioneiros do Movimento Não Alinhado, ao fornecer padrões de uma democracia religiosa ganhou um papel central no processo de evolução das estruturas regionais e internacionais.
Sem dúvida, o encontro em Teerã será um importante novo passo na realização dos objetivos do Movimento Não Alinhado.
O Irã, como um dos principais membros, assumirá nos próximos três anos a presidência do NAM. Fará todo o esforço possível para tornar práticas as ideias dos fundadores do movimento, através da preservação da unidade e da empatia dos membros. O movimento tem de ter uma participação ativa nas relações internacionais, em busca dos interesses comuns dos membros.
O governo e o povo iraniano, de acordo com uma tradição de hospitalidade e de olhar pacífico ao mundo, recepcionarão todos os líderes dos países membros e observadores do Movimento Não Alinhado.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Estado de S. Paulo - 'Potências não dão alternativas ao Irã'


Última frase muito interessante: "Quanto mais pressão externa, mais radical será a política doméstica no Irã. Não há dúvidas quanto a isso." As atuais sanções econômicas não são a maneira correta de lidar com o Irã. Só cria mais ressentimento. Claro que para Israel e os EUA não é conveniente ter uma potência árabe anti-Israel florescente. Melhor que fiquem mal!


O Estado de S. Paulo - 'Potências não dão alternativas ao Irã'/ Entrevista Seyed Mousavian

Para 'voz moderada' da diplomacia de Teerã, maior transparência e respeito a direitos iranianos são as chaves para disputa nuclear
ROBERTO SIMON - Nos últimos anos, o embaixador Seyed Hossein Mousavian foi da cúpula da República Islâmica, onde atuava como um dos principais conselheiros, a uma prisão iraniana, acusado de espionagem. Mas sua opinião continuou a mesma: Ocidente e Irã podem achar uma solução negociada para a questão nuclear, desde que Teerã atue de modo transparente e as potências reconheçam o direito iraniano a tecnologia atômica para fins pacíficos.
Hoje trabalhando como professor convidado na Universidade Princeton, Mousavian falou por telefone com o Estado.
Comecemos pela grande pergunta: o Irã está em busca da bomba atômica?
Estou certo de que a resposta é "não". Na Guerra Irã-Iraque (1980-1988), quando Saddam Hussein matou e feriu 60 mil iranianos com armas químicas, o Exército do Irã estava prestes a retaliar da mesma forma. Mas o líder supremo, imã Ruhollah Khomeini, o impediu, dizendo que armas de destruição em massa eram proibidas pela religião. Ou seja: o Irã rejeitou responder com armas não convencionais mesmo diante de um ataque químico em uma guerra. É a prova mais contundente de que a república islâmica realmente está comprometida com sua crença religiosa, que veta armas de destruição de massa.
E como explicar, por exemplo, as conclusões do último relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), de que o Irã buscou - e talvez ainda esteja buscando - tecnologia nuclear para fins militares?
O tom e a linguagem da AIEA claramente mudaram desde que (Yukia) Amano assumiu a organização, em 2009. Seu antecessor, (Mohamed) ElBaradei, publicamente afirmou: "Não temos nenhum indício de que o programa iraniano tem objetivos militares". Essa mudança é explicada por um despacho da Embaixada Americana em Viena vazado pelo WikiLeaks, segundo o qual Amano estava "no campo dos EUA", contra o Irã. É evidente que houve um entendimento entre Amano e Washington.
Mas, durante o mandato de Baradei, o Irã não enriquecia urânio a 20%, um dos principais motivos de preocupação das potências ocidentais.
De fato com Baradei o Irã não enriquecia a 20% e, mesmo sob Amano, Teerã não queria dar essa passo. Em fevereiro de 2010, o chefe da agência atômica iraniana disse em uma entrevista à rede Al-Jazeera que, se as potências não cortassem o suprimento de combustível, os iranianos não enriqueceriam urânio a 20%. Teerã queria manter o grau de enriquecimento a 5%. Infelizmente, o P5+1 (cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha) rejeitou a oferta. Em setembro daquele ano, o presidente Mahmoud Ahmadinejad, em visita à sede da ONU, disse que suspenderia o processamento a 20% se recebesse o combustível. Novamente o Ocidente recusou a oferta. As potências não deram alternativa.
E qual é a chave para destravar o diálogo?
A chave é fácil de ser identificada. Onde está a "linha vermelha", o limite, para o P5+1? Se for a bomba atômica, a solução é simples. Mas, se for proibir o Irã de enriquecer urânio, não haverá saída, pois isso é um direito iraniano. A solução para a crise é um plano de quatro pilares - dois para o lado iraniano, dois para o Ocidente. O Irã deve promover transparência total e esclarecer todas as dúvidas da AIEA. Ao mesmo tempo, deve mostrar que é confiável, reduzindo o enriquecimento de 20% a 5%. Do outro lado, potências devem reconhecer o direito do Irã de ter um programa nuclear de acordo com as normas internacionais. E, finalmente, é preciso gradualmente levantar as sanções.
Potências ocidentais apostam que, se o Irã estiver sob pressão de sanções, pensará duas vezes antes de seguir avançando com o programa. Como o sr. vê isso?
É uma visão equivocada. Sanções não serão capazes de fazer o Irã se submeter às demandas deles. Não importa quão fortes sejam as sanções ou quão verdadeira seja a ameaça de intervenção militar, o governo iraniano não mudará sua política nuclear dessa forma. O Irã não abrirá mão de seus direitos. Essas ameaças só afastam uma solução negociada.
O sr. foi acusado de espionagem. Como está agora a situação interna no Irã e como será o país sem Ahmadinejad, que deixará o cargo ano que vem?
A política doméstica do Irã sempre foi complicada e, se o Ocidente começar a ter relações normais, recíprocas e justas com a república islâmica, acredito que esse será um incentivo para os iranianos adotarem uma posição mais moderada.
Isso se aplica também ao âmbito interno?
Sim. Quanto mais pressão externa, mais radical será a política doméstica no Irã. Não há dúvidas quanto a isso.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

The Hindu: Opinion: Sanctions on Iran punish its people, not its leaders


Fato importante: as sanções ao Irã atingem mais ao povo do que ao governo. Apenas reforça a ideia de "Ocidente maligno".

Índia – The Hindu

Opinion: Sanctions on Iran punish its people, not its leaders

Saeed Kamali Dehghan
The embargo on oil imports and sanctions on the central bank won’t stop Iran’s rulers from pursuing their nuclear ambitions
The people of Iran should not be held to account for wrongdoing by their regime — and yet, that is what is happening as western countries impose ever-tighter sanctions.
Sanctions are pushing ordinary Iranians to the edge of poverty, destroying the quality of their lives, isolating them from the outside world and most importantly, blocking their path to democracy.
As a result of sanctions, Iranians are now cut off from the world. Universities can barely hold international conferences, students have to forget about exchange programmes, academics face ridiculous difficulties for simple tasks such as subscribing to international journals or submitting research papers to them.
Many services are denied to Iranians not because providers are legally bound to refuse them but because they err on the safe side for fear of getting into trouble. Last month’s incident in the U.S., when an Apple store refused to sell an iPad to an Iranian-American teenager was just one example.
On banking
Iran’s central bank, the only official channel for Iranians to transfer money abroad, is a major target of the sanctions. The Iranian regime, and those close to it, have ways of circumventing the restrictions but ordinary people are not so fortunate.
For example, if you want to enrol for a seminar in the West, purchase goods from abroad or simply book a hotel in another country, you have no easy way of paying. The same applies if you have relatives abroad and want to assist them financially.
If you are an Iranian studying in the EU or the U.S., then you have no way of accessing your bank account at home. If you’re a patient in Iran, in urgent need of medical treatment abroad, like Rojan Pirsalehi, and you need to pay the hospital to secure your visa, then you might end up losing your life.
Sanctions are certainly hitting the Iranian economy: the oil embargo is costing more than $3bn in lost revenue every month. After years of denial, even the Iranian officials are coming to terms about the impact, acknowledging that sanctions have finally begun to bite.
The problem, though is that the regime itself is relatively impervious to such pressures , so the burden falls disproportionately on the people.
Prices of fruit and sugar, among other staples, have soared — in some cases showing threefold and fourfold increases. The price of meat, an essential ingredient of Iranian food, has gone up to such an extent that many now eat it only on special occasions.
In western countries these economic woes would normally result in the government being thrown out of office.
But Iran, like Iraq at the time of sanctions, is not a country where its leaders can be held accountable through elections. In fact, the regime probably feels more secure rather than less, reasoning that sanctions are making the people too weak to revolt.
In effect, Iran’s limp opposition Green Movement has suffered a double blow — once when it was brutally crushed following the presidential election in 2009, and now finding the energy of its supporters sapped. Without sanctions, and the accompanying lack of access to technology, it would be better placed to communicate and organise.
Of course, supporters of sanctions might argue that some suffering now would be justified if it stops what they assume is the threat of a nuclear Iran. What they don’t realise is that sanctions are ruining people’s lives and not forcing Iranian leaders to change their minds. The latest round of nuclear talks between Iran and the West just proved that.
For some time, the West claimed that its sanctions are “smart” and “targeted,” that they were only designed to affect the Iranian regime and not its people. The latest embargo on the imports of Iranian oil and sanctions against the Iranian central bank has left no room for any pretence.
Sanctions are the war, albeit economic and psychological, that the West is waging against the people of Iran and not its rulers. There’s nothing in sanctions that the West should be proud of. It’s time the West thought twice about bringing Iranian people to their knees and destroying their lives.
(Saeed Kamali Dehghan is an Iranian journalist for the Guardian.)